QUANDO VENCER É PRECISO
O SENAI/PB se orgulha de ter em seu quadro um funcionário da mais alta competência, a exemplo de todos eles, mas que se distingue dos outros por ser uma pessoa especial, um verdadeiro exemplo de vida e de determinação. Trata-se do professor Aureliano Villar, que ingressou no SENAI como aluno do Curso de Eletricidade, lá se vão muitos anos, e hoje é instrutor desse mesmo curso e coordenador dos cursos noturnos da Escola de Formação Profissional "Prof. José Stenio Lopes", depois de ter atuado por 13 anos na Unidade Móvel do SENAI/PB em Sousa, como instrutor, missão que lhe foi confiada pelo então diretor da instituição, Prof. Stenio Lopes, que agora dá nome à escola de Campina Grande.
O leitor deve estar se perguntando: afinal, o que esse cidadão fez que outros também não fizeram ou façam? Bem, aí é outra história. A diferença entre ele e outras pessoas é que, enquanto muitas delas se queixam da sorte e vivem reclamando das mínimas coisas que não saem conforme o figurino, Aureliano, que tinha tudo para se retrair diante da vida e se fechar em copas para o mundo, venceu as mais aguerridas batalhas contra as limitações físicas que a Natureza lhe impôs e provou que, quando há força de vontade, tudo é possível.
Graças a sua atitude perante a vida, ele conquistou o respeito e a admiração dos colegas, que o vêem como um exemplo a ser seguido. Afinal, quantas pessoas, que nasceram em condições adversas, sem o local adequado no rosto para se alimentar, sem língua, sem uma pena e com os dedos das mãos defeituosos, conseguiram superar tudo isso e viver normalmente, chegando até a dirigir automóveis e motocicletas? Pois ele conseguiu.
Mas não pense que foi fácil. E nem podia, claro, se já no seu nascimento a parteira que assistiu sua chegada o declarou morto e aconselhou seus pais a sepultá-lo. Só que Aureliano estava disposto a mostrar que não veio a esse mundo a passeio. E para isso contou com um grande aliado - seu pai. Este descobriu que, se não tinha boca, como costumam ter as pessoas ditas normais, o bebê possuía um orifício por onde poderia ser alimentado através de um tubo.
E tratou de cuidar da sobrevivência do filho por esse método, até que os médicos descobriram, quando o garoto tinha quatro meses, ao operá-lo, que a obstrução não se limitava à boca, mas ia até a laringe, e fizeram a desobstrução. Não sem sofrimento, óbvio, pois o neném tinha que ser mantido com a boca aberta durante todo o tempo, até a cicatrização completa da cirurgia, para evitar que a pele se unisse novamente e todo o trabalho fosse em vão.
Pois o teimoso do Aureliano parecia dizer que aquilo era "fichinha". Dispensou até a outra cirurgia que os médicos queriam fazer quando ele completasse oito anos e desandou a falar. Daí em diante, não teve mais quem o segurasse. Não satisfeito em conhecer apenas o seu idioma, decidiu aprender outra língua e escolheu o inglês, que hoje fala fluentemente.
Para quem, até os oito anos, alimentava-se apenas de líquidos, nosso colega até que aprendeu rápido que existem alimentos sólidos divinos e descobriu que também era capaz de saboreá-los, contra todos os prognósticos, permitindo-se todo o prazer de que seu paladar era capaz.
Ele não tinha uma perna. E daí? Que falta faz uma perna para quem tem um pai dedicado que fez inventor de pena mecânica pela alegria de ver o filho amado andar com um ano de idade? É bem verdade que era uma perna rudimentar, feita de couro e ferro, mas foi o bastante para que Aureliano não se sentisse diferente dos seus oito irmãos e das outras crianças. E o artefato ia sendo adaptado a medida em que o garoto crescia. Mas o primeiro, esse é guardado com carinho até hoje, como um verdadeiro símbolo.
Quando o pai querido faleceu, o próprio Aureliano passou a fabricar sua própria perna e as de outras pessoas em situação idêntica à dele. E com a propriedade de quem sabe o quanto é necessário ter os dois membros inferiores, ainda que mecânicos.
Esse homem extraordinário, que nunca viu no filho uma aberração, como costumam fazer alguns pais cujos filhos nascem com algum tipo de deficiência, também foi o responsável pela alfabetização de Aureliano, até que ele pudesse freqüentar escolas e ser encarado como um aluno comum. Daí o porquê de o nosso colega cultuar verdadeira adoração pelo seu genitor. E não era para menos, pois graças a essa dedicação extremada ele fez o Curso de Eletricista do SENAI/PB e não faz muito tempo concluiu o Curso de Técnico Federal da Paraíba, em João Pessoa.
Você acredita que esse nosso herói já participou até de corridas de motociclismo? Participou e se classificou... Numa delas, em Patos, ficou em 1° lugar; e em outra, em Campina Grande; chegou em 2° lugar. Não há mesmo desafio que ela não enfrente.
Mas voltando à sua atuação no SENAI/PB, ele foi o responsável por todas as instalações elétricas das maquinas e dos laboratórios do Centro de Tecnologia do Couro e do Calçado Albano Franco, em Campina Grande. Um trabalho reconhecido pela direção do SENAI como excelente, o que acabou colocando sob sua responsabilidade a manutenção elétrica das maquinas e dos equipamentos do CTCC.
É ou não para se ter orgulho de possuir um colega desses? E um marido. E um pai também. Que o digam sua esposa Glória e suas filhas, que o consideram uma pessoa maravilhosa. Nós também.